sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Um artigo de D. António Marcelino

DEBATE CIENTÍFICO,
POLÍTICO E ÉTICO
A investigação científica, sem a qual, em muitos campos da vida social, não haverá progresso, vem correndo o risco de um fascínio estonteante pelos resultados, de um êxito a qualquer preço, sem prestar atenção aos meios usados, para os quais há, por vezes, balizas éticas que não se podem menosprezar. Igual fascínio e ânsia de sucesso atinge os poderes políticos, na ânsia de tirar proveito dos resultados obtidos pelos seus cientistas e dos encargos assumidos nos respectivos projectos. A Igreja, quando tem pela frente gente para a qual o verdadeiro humanismo pouco significa ou dele tem apenas uma concepção limitada em relação à pessoa humana, sua dignidade e direitos inalienáveis, aparece como “inimiga da ciência e do progresso em virtude da sua intervenção e cuidado, ao levantar problemas éticos, mormente quando se trata de alguns campos de investigação. Não visa motivos religiosos O empenhar-se nesta batalha não tem objectivos religiosos mas somente a defesa daquele que é para si o valor humano supremo: a pessoa, cada pessoa, de qualquer da raça, cor, língua, credo religioso ou político. No Congresso Internacional sobre Células Estaminais, um tema que entre nós se tratou quase às escondidas e com atropelos lamentáveis, o Papa encorajou a pesquisa cientifica em células estaminais adultas. Assim se respeita a vida e se abrem caminhos auspiciosos na procura de remédio para doenças até aqui consideradas incuráveis. Não é demais insistir que o verdadeiro debate científico e político, em matéria tão delicada, tem de ser também um debate ético. O maior bem do homem não permite olhar somente para resultados universalmente válidos, mas obriga a ter em conta os meios usados para os alcançar. Um fim bom não pode justificar meios que, por si, não o são, ao contrário do que muitos propugnam e praticam. A ciência goza de autonomia legítima, mas não é em si mesma um valor absoluto. Repetimos até à saciedade esta nossa convicção. Há sempre gente honesta disposta a não calar a consciência. A desconsideração crescente da pessoa humana em favor de interesses variados é hoje, em muitos sectores da sociedade, uma realidade que não se consegue ocultar. Pessoa e bem comum cederam por vezes, escandalosamente, o seu lugar, por via das arbitrariedades de muitos detentores do poder e do saber, a projectos passageiros, porventura vistosos, mas inconsistentes e garantias futuras. Sempre que não se aceitam nem se respeitam princípios éticos e postulados morais sãos, dá-se mais um passo para a degradação que se vai generalizando. Respeitá-los é contribuir para a humanização das pessoas e das comunidades, tornar o mundo um espaço sereno e ditoso, onde a vida se pode viver com limitações normais e esforços não dispensáveis, mas também com alegria e esperança. A política do facto consumado, seja a que nível for, é desrespeitadora das pessoas, dos seus direitos e do seu contributo para um bem maior. Só interessa a quem olha apenas para si e para os seus interesses. Quem não se abre a uma participação alargada dos implicados, directa ou indirectamente, nos processos que lhe dizem respeito, seja uma participação pessoal, seja do alargamento dos conceitos em causa, prejudica sempre a comunidade humana, ou seja, o Estado, a família, a comunidade e os grupos, o partido político, as instituições mais diversas. Surge assim, para quem o quiser ou for capaz de o entender, a exigência ética a iluminar e abrir caminhos. Não há que ter medo. No meio dos muitos desencontros, políticos, religiosos, sociais, há sempre um mínimo ético possível, que pode ajudar a caminhar juntos e a ir sempre mais longe, do que o poderá fazer quem quer caminha sozinho, fazendo, quiçá, dos outros apenas o trampolim para os seus fins.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Um artigo de Alexandre Cruz

Do ensino à educação
1. Saber muitas coisas não é sinal automático de grandeza em “ser pessoa”. “Quantidade” não é sinónimo imediato de “qualidade”. Saber “ler, escrever e contar”, certamente que não sintetiza toda a grandiosa tarefa educativa em “formar” pessoas criativas e felizes. A educação está muito acima do que se ensina, mas tudo o que se estuda deverá contribuir para uma saudável realização educativa. Há todo um património de valores e referências pessoais que a “razão” prática desconhece na sua profundidade e que, afinal, são a base em que tudo, a sociedade de pessoas, se edifica. O novo ano escolar está aí. Com ele novos ideais, metas, objectivos de uma educação plena de valores e virtudes humanas e solidárias se levantam; se assim não for será porque o centro de referência da educação integral está perdido, entretido, ou “sem tempo”, na margem. Por vezes, e tendo em conta a realidade do país, soa a estranho que quase todas as apostas se mobilizem no sentido escolar técnico-prático e tão poucas no sentido plenamente educativo, faltando discernir os caminhos da “missão do ensino” para a educação humana. Vamo-nos especializando tecnicamente em números, teclas e fórmulas e qualquer dia já nem sabemos assumir o relacionamento humano e social como parte integrante do processo de educação integral rumo à maturidade pessoal e a uma dimensão de pessoa integrada na sociedade. Depois admiramo-nos dos cidadãos “absterem-se” da “cidade”…; sabemos até que tantos instrumentos úteis favorecem o “individualismo” contemporâneo, mas temos (leia-se: não queremos ter a partir de cima) uma hora no horário semanal de formação humana, plural mas com centro na abordagem dos valores humanos, da dimensão estruturante pessoal e social, que ajudem a “pensar a vida” com “espírito crítico” construtivo e cultural; não damos lugar ao equilibrar do barco pessoal e por isso social. Em que referências “assentarão” os que vão perdendo a visão de conjunto da vida? Fechar-se-ão, cegamente, no seu mundo egocêntrico, restrito e limitado?... 2. De uma realidade não existam dúvidas: quanto mais se valorizar em projectos educativos a dimensão do “ser pessoa em sociedade” tanto mais e melhores profissionais darão as escolas à vida social. Desta escola de vida, alicerçada em valores de ética e corresponsabilidade social, é que sairão autênticos “mestres” que sabem aplicar com sensibilidade e espírito de serviço o seu saber. Caso contrário: Que dizer daquele intelectual que, aluno de 21 (de um a vinte!), não sabe mais nada para além da sua especialidade, nem sabendo relacionar-se com os outros que são alunos de 18 ou 12?! Ou então daquele que sempre foi levado ao “colo”, pós-adolescente que, sem autonomia e responsabilidade, chega à empresa com as soluções de “tudo” não sabendo “estar” nem “fazer caminho” com os outros?! Ou do outro, auto-suficiente brilhante incapaz de trabalhar em grupo, que nunca teve nenhuma dificuldade em nada na teoria escolar (e na escola não havia “horário” para lhe falarem da VIDA), ele que chega à “realidade” e não aguenta o “choque” da verdade da vida e cai em “depressão”?!... Dá-nos que pensar e desafia-nos a uma visão de conjunto! Se é estratégica e retórica a pergunta sobre “o que andamos a fazer na escola? (faz-se imenso)”, a verdade é que, fazendo-se tanto de “ensino técnico”, tantas vezes a escola dá a sensação de estar desligada da “educação humana”, das pessoas e da vida (Será?!). Nas escolas faz-se o mais que é possível na inesgotabilidade de alunos (a sua razão de ser), de professores (profissão / serviço que importa sempre dignificar na sua essencialíssima missão ao futuro do país – sem professores motivados não vamos lá!) e de funcionários, com toda a comunidade escolar mais abrangente. Fazem-se autênticos “milagres” na dimensão da gestão e do “ensino” no quadro da realidade nacional… Trabalhamos em quantidade, mas realizaremos bem? Em que bases pessoais? Afinal, quais os lugares da “educação” nas causas e valores humanos no sistema de “ensino”? 3. Tantas vezes, pelo arrastar os dias e pelo “apagar os fogos” das urgências da realidade, falta o rasgar de horizontes motivadores porque motivados, um “ideal”, um “sonho”, um “projecto” que mobilize as pessoas da comunidade. Não, não é questão de “ensino” ou instrumentos, é a questão estrutural e estruturante da educação no seu sentido amplo, integrado, inclusivo, a “educação” que, a montante ou a jusante, toca a todos e nela está, no fundo, a expectativa de todos os futuros. Meios perdidos com acessórios e tecnologias, tantas vezes, esquecemos as pessoas que são o essencial! Sem “elas”, sem “nós”, sem a “vida” em comum de todos não há comunidade, não há escola! Ano que começa, toca a campainha! Um convite ao apurar de sensibilidade na visão de projecto que alie o ensino à dimensão educativa integral em que os valores de uma identidade na pluralidade são a base de tudo; por isso um “projecto” atento às pessoas concretas no desenvolvimento da sua dimensão pessoal e relacional. Numa escola plural e multicultural, e agora já multilinguística (as crianças filhos de imigrantes entre nós estão a chegar à escola…). É tudo isto, num tempo novo, exclusivamente uma questão de computadores ou Internet? De maneira nenhuma! Mas agora que com valores, causas, ideais, motivação, os estudantes “agarrados” por uma educação integral que poderão com todos os instrumentos globais de utilidade técnica “render” muito mais para servir este mundo… lá isso é a verdade mais fascinante que só depende da aposta numa educação com valores. Não tornemos essencial o acessório! Os profissionais do futuro, para o serem de modo sempre melhor servindo a sociedade em geral, precisam de um “ideal educativo” que os faça crescer por dentro. Para quando “uma hora semanal” – nem quem sejam mesmo só 90 minutos, o tempo de um jogo de futebol! - de direitos humanos, cidadania, valores, ONU, UNESCO, filosofias, religiões, literatura, culturas…de modo não facultativo mas fazendo parte de um “projecto” nacional? Ou será qualquer dia a palavra “ética” já estranha ao vocabulário vivencial? Sendo certo que todos os instrumentos que usamos cada dia são admiráveis, todavia eles só são úteis, acessórios práticos. É que no princípio e no fim de tudo, não é pelas máquinas que iremos, mas sim “pelas pessoas é que vamos”! Afinal, qual o lugar da “educação” (da dimensão pessoal-social) no “ensino” dos conhecimentos? O que queremos para o amanhã? Pessoas saudáveis e situadas ou simplesmente técnicos?!... Sem semear não esperemos colher!

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

REFERENDO SOBRE O ABORTO

Referendo agendado para Janeiro de 2007
D. José Policarpo: campanha contra o aborto
deve ser liderada
pela sociedade civil
O cardeal patriarca de Lisboa considera que a questão do aborto "não é um problema religioso" e manifestou o desejo de que seja a sociedade civil e não a Igreja Católica a encabeçar o movimento pelo "não" no referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, agendado para Janeiro do próximo ano. Num encontro com jornalistas que decorreu ontem, D. José Policarpo explicou que o debate sobre o aborto foi objecto de "alguns equívocos", como escreve hoje o PÚBLICO.
O aborto "não é um problema religioso, não é um direito da mulher e o Estado não consegue fixar o momento em que um indivíduo é cidadão com direitos, liberdades e garantias. O aborto clandestino é um problema real, mas, para o resolver, criamos outros."
Citado hoje pelo "Diário de Notícias", o cardeal patriarca respondeu, depois de questionado sobre se a Igreja vai assumir algum papel na campanha: "Queria que fossem os leigos, os pais de família e os médicos a liderar a campanha do 'não'".
No primeiro referendo à despenalização do aborto, realizado em 1998, a Igreja fez campanha pelo "não".
: Fonte: "PÚBLICO online"

CUFC – Fórum::UniverSal

CUFC

:: D. Ximenes Belo
em Aveiro
para falar da paz
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D. Ximenes Belo, Bispo Emérito de Dili e Nobel da Paz em 1996, vai estar em Aveiro, no CUFC (Centro Universitário Fé e Cultura), no próximo dia 4 de Outubro, quarta-feira, pelas 21 horas, para falar da paz, em mais uma “Conversa Aberta”. Esta é uma organização do CUFC e da Fundação João Jacinto de Magalhães / Editorial UA. Os apoios são do Diário de Aveiro e do jornal www.ua.pt/uaonline, sendo parceiros AAUAv – ISCRA –AAAUA – AECAv. O tema a desenvolver por D. Ximenes Belo, “Vamos Falar da Paz”, destina-se aos alunos dos vários departamentos da Universidade de Aveiro, mas também ao público em geral. Trata-se de um assunto pertinente, que D. Ximenes, pela larga experiência que possui nesta área, não deixará de abordar numa linha vivencial, que a todos enriquecerá. A entrada é livre.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Um artigo de António Rego

Violência
apadrinhada
pela religião
Voltou ao de cima o mote da violência. Na verdade nunca nos abandonou como nunca se separou do homem ao longo da sua história. Sobreviver ao longo de milénios associou-se, sem aparente alternativa, a matar para estar vivo. Cada vez mais o homem hoje procura vigiar, pelo ecrã, a savana nos seus jogos cruéis de predador sempre amea-çada de morte. E muitas vezes ao olhar essas imagens vê uma espécie de parábola de si mesmo e pergunta se não andaremos perto da selva quando nos passeamos no mais aveludado dos tapetes ou nas estradas larguíssimas do conforto moderno onde nos apresentamos como seres superiores - quase divinos - repetindo, no quotidiano, gestos de defesa e ataque como os rastejantes, felinos ou voadores de garras feitas para o combate. Neste trilho deparamos com a razão, a fé, a alma, o afecto, a dádiva, a conciliação, a paz proposta e aceite. Por este parâmetro medimos a nossa real altura e pesamos o ouro da nossa dignidade. Mas percebemos que nada é linear. Aconteceram, não há muito, duas guerras mundiais, holocaustos, invasões, penas de morte tecnicamente executadas, pontes perfeitas entre o sublime e o aviltante que parece habitar o cidadão electrónico, infor-mático, cem vezes doutor de ciências, de conhecimentos sobre o homem, cirurgião do psíquico, químico de todas as combinações de fármacos que salvam e matam povos e civilizações. E ainda pólos de desenvolvimento e primitivismo que coabitam a distâncias mínimas dentro do mesmo planeta que geme, sufocado pelos estrangulamentos, muitos dos quais provocados pelo progresso. Em que ficamos, afinal? Na paz como um desiderato poético ou místico sem assento real na vida dos povos? Em boa verdade a paz coabita e caminha no nosso mundo. Sempre em risco e rodeada de ameaças. Mas sempre que se vence a escravidão, se consegue um acordo, se reafirma a dignidade, se recomeça um diálogo. Mesmo se se debate, em liberdade e respeito, uma multi-plicidade de crenças, ideias e opiniões. A paz é também um fruto cristão. E acontece quando se desmonta a máquina da morte e da violência, no encalço de entendimento entre culturas e religiões. Hoje mais que nunca é impensável a violência apadrinhada pela religião.

Citando D. Carlos Azevedo

Diálogo frontal
com o islão
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“Se os líderes ocidentais não quiserem ser surpreendidos pelo tão falado choque de civilizações, têm de o preparar. O Islão deve ser encarado com um diálogo verdadeiro e frontal e não com medo e hipocrisia como os políticos europeus e ocidentais têm feito até agora.” E mais: “Nós não podemos ter receio de dizer que é mau espalhar a fé com a espada (…). A Igreja Católica também já cometeu esse erro, mas corrigiu-se, e até já pediu perdão pelos excessos cometidos na Idade Média e na Inquisição.”
D. Carlos Azevedo,
in “Correio da Manhã”
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Estou de acordo

Estou plenamente de acordo. D. Carlos Azevedo é um bispo frontal e sem papas na língua. A Igreja Católica precisa de gente assim. Todos sabemos que as repúblicas islâmicas são, na sua maioria, ditatoriais. Todos sabemos que, em muitas delas, as mulheres ainda não podem viver os mais elementares direitos cívicos como nós os conhecemos, alegadamente em nome da tradição que a religião inspira. Todos sabemos que os fundamentalistas corânicos alimentam terrorismos e guerras implacáveis. Todos sabemos que esses mesmos vivem obcecados pela destruição dos que não comungam da sua fé. Todos sabemos que em muitos países islâmicos não há liberdade de culto, persistindo violentas perseguições aos cristãos. Como diz D. Carlos, a Igreja Católica já fez o mesmo, em tempos que já lá vão. Já pediu perdão dos erros que cometeu. Mas também sublinha que o diálogo com o Islão tem de ser frontal e sem hipocrisias. E sem complexos nem medos. Estou de acordo. Fernando Martins

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

D. António Francisco, novo Bispo de Aveiro

Novo Bispo de Aveiro confessa emoção
D. António Francisco
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D. António Francisco dos Santos foi nomeado Bispo de Aveiro na passada quinta-feira, quando estava em Roma. Em entrevista à Agência ECCLESIA, fala das emoções vividas nos primeiros momentos e do futuro próximo
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Agência ECCLESIA (AE) – Foi para Roma como bispo auxiliar de Braga e saiu de lá como bispo de Aveiro. Como encarou esta nomeação? D. António Francisco Santos (AFS) – Estive num encontro, em Roma, com 132 bispos e foi uma coincidência feliz. Na mesma hora que a notícia saiu (11 horas de 21 de Setembro) estava com Bento XVI, em Castel Gandolfo, acolher a sua mensagem aos bispos novos. Bento XVI disse-me para ir com alegria e optimismo para a Igreja de Aveiro. AE – Foi ordenado bispo auxiliar de Braga a 19 de Março do ano transacto. Passado um ano meio vai para titular da diocese de Aveiro. Um novo trabalho e uma nova realidade? AFS – Fui ordenado para servir a igreja de Braga onde encontrei uma imensa e dinâmica diocese. Com um milhão de habitantes, esta diocese tem um laicado cheio de dinamismo. Aprendi muito nesta igreja diocesana e penso que irei transferir o manancial recebido e aprendido para a Igreja de Aveiro.
: Leia toda a entrevista na ECCLESIA

domingo, 24 de setembro de 2006

Discurso do Papa

Durão diz que líderes europeus não apoiaram Bento XVI após discurso polémico
O presidente da Comissão Europeia expressou o seu desapontamento pelo facto dos líderes europeus não terem apoiado o Papa Bento XVI depois das críticas e ameaças que recebeu do mundo árabe, na sequência do seu discurso em que citou um imperador bizantino que estabelecia uma ligação entre Islão e violência. José Manuel Durão Barroso afirmou em declarações à imprensa que a Europa, apesar da necessidade de tomar a ameaça terrorista islâmica de forma "muito séria", "não pode confundir a tolerância com o politicamente correcto", pondo outros valores acima dos seus próprios.
"Fiquei desapontado por não ter havido mais líderes europeus a dizer - 'É claro que o Papa tem direito de expressar o seu ponto de vista'", afirmou Barroso ao semanário alemão "Die Welt am Sonntag". "Temos que defender os nossos valores", acrescenta, na entrevista.
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Leia mais no "PÚBLICO"

IGREJA AO SERVIÇO DOS MAIS POBRES

Bento XVI espera que as comunidades paroquiais da Igreja Católica sejam uma referência para os pobres, aos quais são chamadas a dar apoio
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“Da união constante com Cristo, a paróquia tira energia para comprometer-se, sem regatear esforços, no serviço aos irmãos, particularmente os pobres, para quem representa uma referência primeira”, disse o Papa aos participantes da assembleia plenária do Conselho Pontifício para os Leigos. A paróquia, sustentou, deve ser uma “família de famílias”. Já na sua encíclica “Deus caritas est”, e na linha da tradição das primeiras comunidades, o Papa afirmara não ser tolerável que continue a haver, nas comunidades cristãs dos nossos dias, pessoas a quem falta o indispensável para uma vida digna. Aludindo ao exemplo das primeiras comunidades cristãs, Bento XVI recordou que o livro dos Actos do Apóstolos indica os “critérios essenciais” para uma compreensão correcta da natureza da comunidade cristã, quando descreve a primeira comunidade de Jerusalém “perseverante na escuta do ensinamento dos Apóstolos, na união fraterna, na fracção do pão e nas orações, uma comunidade acolhedora e solidária ao ponto de colocar tudo em comum”.
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Leia mais em ECCLESIA

Um artigo de Anselmo Borges, no DN

Bento XVI contra o Irão
Tudo aconteceu no contexto de uma Vorlesung (lição universitária) e, mesmo admitindo que Bento XVI tenha sido talvez imprudente ao apresentar, no desenvolvimento da sua tese, a já famosa citação e que poderia fazer também uma referência à violência dos cristãos ao longo da História, deve-se reconhecer que não há razões objectivas para a indignação e os protestos do mundo islâmico.
Como se sabe, nas universidades públicas alemãs, há duas faculdades de Teologia: uma católica e outra protestante. Ora, se a fé nada tivesse a ver com a razão, com que direito se justificaria a presença da Teologia na universidade? Daí o tema da lição do professor Joseph Ratzinger na Universidade de Regensburg: "Fé, razão e universidade.
"O conceito moderno de razão baseia-se na síntese entre platonismo (cartesianismo) e empirismo. Só as ciências naturais poderão reivindicar certeza, pois detêm o monopólio da cientificidade, que deriva da sinergia de matemática e experiência. Assim, não admira que as ciências humanas tenham procurado aproximar-se deste critério. Por outro lado, este método exclui o problema de Deus, "fazendo-o aparecer como problema a-científico ou pré-científico".
Torna-se, porém, claro que, nesta concepção, o próprio homem sofre uma redução, já que as perguntas radicais sobre o fundamento e fim últimos e as questões da religião e da ética não encontrariam lugar no espaço da razão universal, devendo ser deslocadas para o âmbito da mera subjectividade.
Não se pode voltar atrás em relação ao iluminismo. Mas impõe-se superar a limitação da ciência ao que é verificável na experimentação e abrir a razão à amplidão de todas as suas dimensões, isto é, não se pode ficar encerrado na razão positivista.
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FLORES

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Com a chuva que aí está, mais o vento, ora brando ora bravo, teremos de nos habituar a uma vida mais triste? Penso que não.
Há flores que murcham e caem, mas outras, mais dadas ao frio, hão-de resistir. Que a vida, como é habitual, precisa da alegria e da beleza que as flores nos dão.
Mas se elas se forem com o vento, que ao menos saibamos alimentar o prazer da espera pelo seu regresso. E até lá, aprendamos a cultivar outras flores, daquelas que nos enchem a alma com as suas cores e aromas: a amizade, a partilha da nossa alegria, o bem que podemos fazer a quem nos cerca, a aposta na construção de um mundo melhor.
F.M.

Gotas do Arco-Íris – 32

ONDE ESTÁ
O COR DE ROSA
NA NOSSA VIDA?
Caríssimo/a: “Nada mais encantador...”
Com estas palavras também a mim me apetece iniciar, pois este gosto por descobrir papéis amarelados leva-me , por vezes, a encontrar iguarias bem inesperadas (ou pelo assunto, ou pela forma da abordagem, ou por quem o escreve, ou por tantas e tantas outras válidas razões....). Desta vez, vou dar voz a Guerra Junqueiro e sereis vós a dizer o que pensais sobre este mais do que invulgar escrito. Vem comigo e delicia-te, pois, por causa das dúvidas, até mantenho a ortografia. É assim: “Nada mais encantador de que essa bela quadra da vida denominada a «lua de mel». A existencia é então uma suave melodia, uma doce ecloga cantada pelo coração, um sonho côr de rosa, um constante sorriso, um extase arrebatador. Nesse alegre arroubamento, as horas deslisam sem as sentirmos, porque do alto da felicidade não se ouvem os remores do mundo; ouvem-se apenas as harmonias celestiais. Os entes embriagados da ventura, esquecem os relogios e os almanaques e tudo o que se prende á vida comum. No poético priodo chamado «lua de mel» dilata-se o coração com a plenitude dos intimos gosos, que são os que mais satisfazem. Quando a igreja sancciona o amor que inspira o ente que nos fez vibrar o coração, o amor augmenta os enthusiasmos por vel-os mais justificados. O amor sanccionado pela igreja é santo, puro, ethéreo e angélico. Os seres dominados por este sentimento immaterialisam-se e aperfeiçoam-se, porque sendo o amor legitimo uma virtude inspira tudo quanto há de bom. Os nossos sentimentos purificam-se nesse fogo sagrado e convertem-se em grinaldas de castas e nacaradas ilusões. Oh! amor santo! Sê sempre o nosso pharol para não nos perdermos no oceano das paixões bastardas. As paixões bastardas nascem na discórdia do mundo; o amor conjugal, no céu. Esse amor de origem tão elevada é sereno e tranquilo; as más paixões são agitadas e tempestuosas. Casar sem amor é profanar o mais respeitavel de todos os sentimentos; casar sem amor é suicidio moral. Os desgraçados que contráem este laço por frios calculos nunca terão «lua de mel». O matrimonio teve por base o afecto mutuo de dois corações. Os seres estreitados por este suave laço reduzem os pezares da vida á metade e centuplicam as felicidades.” O recorte de jornal, onde se encontra o que aí está, tem para mim um sabor muito especial, porque foi extraído de um jornal luso-americano e guardado por meu estimado Sogro (que mourejou como emigrante, nos Estados Unidos, nas décadas de vinte e trinta do século XX). Fica, pois, como um apelo ao cor de rosa na nossa vida. Como está o meu cor de rosa? E o teu? Manuel

O ENCONTRO

ANTIGOS ALUNOS
DA EICA
CONFRATERNIZAM
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No sábado, tive o prazer de participar num encontro de colegas de escola. Da velha Escola Industrial e Comercial de Aveiro, a EICA como era conhecida, e cujo edifício definitivo foi inaugurado fez no passado dia 24 de Maio 50 anos, para substituir instalações provisórias e inadequadas que muitos de nós frequentámos. À roda da mesa, foram desfiadas recordações de há décadas, que o tempo não apaga completamente. Estão bem armazenadas no cofre dos objectos mais preciosos, que foram as nossas vivências de infância e juventude. Umas estão quietas no inconsciente ou subconsciente, acamadas e acomodadas em gavetas que se abrem mais nestas circunstâncias. Outras saltam logo para a luz do dia em encontros ocasionais e nestas confraternizações, como se fossem vividas há meses. Os cabelos ralos ou inexistentes, os bigodes esbranquiçados e as rugas a cobrirem rostos, que há muito tempo eram plenos de jovialidade, não conseguiram esconder os sorrisos e as gargalhadas de sempre, que foram e ainda são as marcas indeléveis das amizades que perduram. Depois das habituais queixas das maleitas que atormentam alguns, de mistura com acepipes saborosos ao gosto da nossa cozinha tradicional, sem arrebiques de modernidades que muito pouco nos dizem, foi agradável recordar professores que nos ensinaram e prepararam para a vida, indicando-nos caminhos de formação contínua, de justiça, de verdade e de paz. Também foi saboroso perguntar por muitos que não puderam estar e foi bonito saber que a grande maioria soube reger-se por critérios de trabalho e de honestidade. Mas comovente foi a evocação dos que já partiram. Para cada nome proferido, para cada nome que nos fez voltar atrás para rir e folgar com esses que agora nos esperam, não faltaram as palmas da saudade que não se esvai. Depois foi o regresso a casa, com a promessa e a garantia do próximo encontro. Para breve. Porque recordar é viver. Fernando Martins

sábado, 23 de setembro de 2006

Um artigo de Francisco Sarsfield Cabral, no DN

Do comunismo
à ameaça islâmica
Estão na moda os paralelismos entre a presente ameaça extremista islâmica ao chamado Ocidente e a ameaça comunista que marcou a guerra fria. Sigamos, então, a onda.
Sendo ideológica, a ameaça comunista era sobretudo militar e geostratégica. Vinha da poderosa União Soviética. Hoje, a revolta do islão fundamentalista contra o Ocidente tem o apoio de alguns Estados, como o Irão, mas parte da "sociedade civil". E inclui nos alvos a abater governantes de países islâmicos, como os da Arábia Saudita.
Sem força militar, o"fascismo islâmico" recorre ao terrorismo, ainda por cima com suicidas. Os comunistas do passado iam menos por aí. Era nas franjas anti-soviéticas da contestação ao capitalismo que surgiam os principais grupos terroristas, como o Baader- Meinhof na Alemanha ou as Brigadas Vermelhas em Itália.
Doutrina ocidental, o marxismo tomou corpo em países atrasados, como a Rússia e a China. Até como via aparentemente rápida para o desenvolvimento, o comunismo atraía povos que se sentiam colonizados e oprimidos pelos Ocidente rico.
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sexta-feira, 22 de setembro de 2006

OUTONO

As folhas já começaram a cair
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Outono bate à porta
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O Outono vai chegar, com toda a sua carga de melancolia. Hoje, durante todo o dia, bateu à minha porta para entrar. Fui um pouco arrogante quando lhe disse que ainda era cedo. E era verdade. A sua hora, rigorosa como acontece cada ano, chega logo mais, pelas 5.03 horas da madrugada de sábado. Ele que tenha calma.
Na verdade, porém, o vento e a chuva já me garantiram que ele não vai atrasar-se. E eu cá estou para o receber e aceitar, já a pensar na lareira que me há-de aquecer o corpo e a alma nos serões familiares, com um bom livro e boas conversas a obrigarem-me a viajar pelo mundo dos sonhos.
O começo do Outono não acontece sempre na mesma altura, uma vez que esta data é estabelecida a partir de cálculos matemáticos, para se ajustar ao movimento da Terra. Mas uma coisa é certa: mais minuto menos minuto, ele nunca deixa de nos lembrar que a vida está marcada pelo sortilégio das estações, cada uma com os seus encantos.
Já agora, fique a saber que a entrada na hora de Inverno ocorrerá este ano às 2 horas do dia 29 de Outubro, altura em que os relógios deverão ser atrasados 60 minutos em Portugal Continental e na Madeira. No arquipélago dos Açores, a mudança ocorre à 1 hora, devendo os relógios ser atrasados para as zero horas.
F.M.

Um artigo de D. António Marcelino

QUANDO NA EDUCAÇÃO O AMOR É EXIGÊNCIA DE SERIEDADE
Li e recortei, com a intenção de fazer eco deste facto no início do novo ano escolar. Cá estou a concretizar o propósito. Fala-se de uma atitude que contradiz a mentalidade corrente e por isso merece maior menção, pela sua actualidade, importância e sentido. Veio publicado no jornal Publico (28.04.2006) em editorial do seu director. Trata-se de um pai que, ao levar o seu filho à escola para iniciar a aprendizagem, pede ao professor, entre outras coisas, as que seguem: “Faça-o aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas, por favor, diga-lhe que por cada vilão há um herói, que por cada egoísta há também um líder dedicado. Ensine-lhe que por cada inimigo há também um amigo; ensine-lhe que vale mais uma moeda ganha que uma moeda encontrada; ensine-o a perder, mas também a gozar a vitória. Faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales. Ensine-o a acreditar em si próprio, mesmo se sozinho contra todos; ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram; ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho; ensine-o a rir quando está triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram; ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão…” O pai que fazia todos estes pedidos ao professor do seu filho foi Abraham Lincoln, 16º presidente dos EUA. Deixou marcas importantes na história do seu país, como a luta contra a escravatura, que lhe valeram perseguição e morte. Um homem com dimensão Ouvimos por estes dias projectos que falam de uma escola para todos, capaz de preparar os alunos para a vida profissional, de modo a ter resultados que honrem o país. Projectos que formem pessoas e as ajudem a ser e não apenas a fazer, passam pouco na conversa dos pais e dos mais responsáveis. A escola que não ajuda a fazer homens abertos e responsáveis, capazes de colaborar, de dialogar e de conviver, de crescer de modo harmónico, capazes de admirar os outros e a beleza da natureza, sérios e críticos, não realiza a sua função. Isto obriga a escola a rever o que é, o que faz, como e quem o faz e qual o sentido. Remendos em vestido velho não o tornam novo. Ensinar para os exames e para as estatísticas de cá e de fora é tão pouco que é nada. Quando haverá coragem no fim de cada ano para examinar o desenvolvimento da personalidade, a capacidade de relação, o amor ao trabalho, o grau de responsabilidade, o respeito pelos outros, a sensibilidade à injustiça e à mentira, o sentido crítico com base em valores? Lincoln queria que o filho fosse um homem equilibrado e sensível e pedia à escola que o ajudasse nesse sentido. Há pais que o que querem hoje é que o filho passe, mesmo que não saiba e arranje depressa emprego, mesmo que tenha de passar por cima de outros, mais capazes e competentes. Quem saiba apreciar dizeres e projectos de governantes, lutas de sindicatos, preocupações de pais, e vá conjugando o seu juízo com as atitudes negativas e desinteressadas do dia a dia por parte de muitos professores e alunos, se tem alguma esperança num futuro positivo para a sociedade, não pode deixar de ficar preocupado. O futuro joga-se, socialmente em grande parte, na família e na escola. Duas aliadas que não se podem separar, nem ignorar. Não podem caminhar paralelas e muito menos agredindo-se mutuamente. Por infelicidade quem vai fazendo história são as minorias protegidas. O comum das pessoas sensatas, que são a grande maioria, deixou de ser considerado. O país pagará preço elevado pelas inércias, miopias e pressões sociais que atingem o nosso sistema educativo, mesmo com a justeza da algumas medidas tomadas.

A opinião de Pacheco Pereira sobre o discurso do Papa

O QUE É QUE NO DISCURSO
DO PAPA INTERPELA O ISLÃO?
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Assistimos, hoje, à formação de um mecanismo de censura prévia que se acciona sempre que se falar, seja qual for o modo de se falar, do islão, de Maomé, do Alcorão. Agora foi o Papa, por ser o Papa e por ser o símbolo do mundo "dos cruzados". Nós estamos sempre a minimizar a dimensão religiosa do conflito, mas não somos correspondidos pelos muçulmanos fundamentalistas. Para eles, nós, mesmo que sejamos ateus, agnósticos, indiferentes, não praticantes, ou exactamente por isso, somos "cristãos" em guerra santa. Que melhor imagem para personificar os "cruzados" do que a do Papa, queimado em efígie numa capital árabe como se fosse um cavaleiro templário, com a cruz de Cristo das armaduras sobre as vestes brancas? Muita história, demasiada história.
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Leia mais no Abrupto

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Mensagem do novo Bispo de Aveiro

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D. António Francisco dos Santos
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Saudação à diocese de Aveiro
1. In manus Tuas
O Santo Padre Bento XVI, que esta manhã me recebe em audiência concedida aos Bispos reunidos em Congresso, em Roma, decidiu enviar-me para servir, como Bispo diocesano, a Igreja de Aveiro.
Acolhendo com gratidão e espírito de serviço esta missão, o meu coração e o meu olhar voltam-se, a partir daqui e desde já, para cada um de vós, filhos desta Igreja que, agora, passa também a ser minha. Permiti que vos saúde com muito afecto, imensa alegria e plena disponibilidade, manifestando, junto de todos, a minha total vontade de servir.
Apresento-me despojado, sem planos nem programas, animado por um único desejo: escutar o Senhor, anunciar a Sua Palavra, testemunhar o Seu amor, servir como Ele (cf. Mt 20, 28) e, convosco, continuar a construir uma Igreja serva, em nome d’Aquele que sempre Se assumiu como servo (cf. Lc 22, 27).
Reafirmo o propósito assumido na minha eleição para o ministério episcopal: in manus Tuas (Lc 23, 46). Um lema que vim a descobrir ser o mesmo que D. Hélder Câmara esco-lheu quando foi eleito Bispo, em 1952. Como ele, como tantos outros e, sobretudo, como Jesus Cristo, também eu quero, uma vez mais, entregar o meu ser e depositar a minha vida nas mãos do Pai. A Ele me entrego, para vos servir a todos vós.
A alegria que hoje sinto transporta as marcas da surpresa crente que assinalou os caminhos de Abraão, de João Baptista e dos discípulos de Jesus:
— a surpresa do chamamento ao ministério episcopal, num momento doloroso da minha vida de filho, e para trabalhar na tão extensa, dinâmica e amada Arquidiocese de Braga, onde me senti tão bem e tão feliz; e cujo acolhimento agradeço, nas pessoas do senhor Arcebispo Primaz, D. Jorge Ortiga e dos senhores D. Antonino Dias, D. Eurico Nogueira e D. Carlos Pinheiro;
— a surpresa inesperada de ser Bispo diocesano quando dava os primeiros passos neste ministério.Mas não hesitei. Como Isaías, digo: «Eis-me aqui» (Is 6, 8). Como Maria respondo: «Faça-se» (Lc 1, 38). E como Jesus ofereço-me: «Seja feita a Vossa vontade» (Mt 6, 10).
É assim, queridos irmãos da Diocese de Aveiro, que me preparo para ir ao vosso encontro; para ir ao encontro de uma terra com pergaminhos na defesa da liberdade e do desenvolvimento e na edificação de uma Diocese recém-restaurada (1938), sempre servida por Bispos ornados de talento, generosidade e dinamismo apostólico.
Daí que o inicial sentimento de apreensão, perante o chamamento de Deus e a missão que o Santo Padre hoje me confia, seja superado pela força da confiança que em mim nasce ao renovar a minha entrega ao Senhor, fazendo-me eco do lema que escolhi: in manus Tuas.
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Leia toda a mensagem no Correio do Vouga
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Foto cedida pelo Correio do Vouga

Mensagem de D. António Marcelino

Temos um
novo Bispo
em Aveiro!
Venho dar a todos vós, caríssimos diocesanos, uma boa notícia.Neste dia, em que completo 76 anos de idade e 31 de episcopado, quase 26 destes vividos convosco e ao vosso serviço, quis o Santo Padre dispensar-me do governo diocesano e nomear, como meu sucessor, o Senhor D. António Francisco dos Santos, Bispo Auxiliar de Braga e originário da Diocese de Lamego. Noutro local deste jornal podereis ver a sua biografia e os serviços apostólicos e pastorais a que foi sendo chamado.
Sinto muita alegria nesta escolha do Santo Padre. D. António Francisco, como iremos chamar-lhe e logo veremos, é um homem simples, aberto, amadurecido e experiente, um padre exemplar, culto, apostólico e bem preparado para a missão, um Bispo próximo e acolhedor, com sensibilidade e grande compreensão das exigências que hoje são postas à Igreja e das realidades humanas e sociais.
A mensagem que ele quis, já neste dia, dirigir à Diocese, e hoje mesmo publicada, denuncia bem o seu espírito sacerdotal e apostólico. Ele a dirige de Roma, onde participa num encontro para bispos, sendo hoje mesmo recebido por Bento XVI.A entrada na Diocese, será, por sua vontade, no dia 8 de Dezembro, festa litúrgica da Imaculada Conceição e 34º aniversário da sua ordenação sacerdotal.
Até lá, pede-me o Papa que continue a dirigir a Diocese como Administrador Apostólico, com as faculdades e as responsabilidades que este título canónico comporta.
D. António Francisco, ainda com muitos compromissos assumidos em Braga, passará, porém, pela Diocese, para ir conhecendo pessoas e instituições e se aperceber, de perto, da nossa realidade social e pastoral. Rezemos, a partir de hoje, pelo novo Bispo, dom de Deus à Diocese de Aveiro, para que ele seja, como é seu desejo, um Pastor à maneira de Jesus Cristo, o Bom Pastor.
António Marcelino,
Administrador Apostólico

NOVO BISPO DE AVEIRO

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D. António Francisco dos Santos
entra na diocese em 8 de Dezembro
Por solicitação da Nunciatura Apostólica em Portugal, a Agência ECCLESIA informa que o Papa Bento XVI nomeou como novo Bispo de Aveiro D. António Francisco dos Santos, até agora Bispo Auxiliar de Braga. Bento XVI aceitou a renúncia do governo pastoral da Diocese de Aveiro, apresentada por D. António Marcelino, dado este ter completado o limite de 75 anos de idade (em conformidade com o cân. 401, parágrafo 1, do Código de Direito Canónico). D. António Francisco dos Santos foi nomeado Bispo Auxiliar de Braga por João Paulo II a 21 de Dezembro de 2004. Na Conferência Episcopal Portuguesa tem a responsabilidade de presidir à Comissão Episcopal para as Vocações e Ministérios. O novo Bispo de Aveiro é natural da Freguesia e Paróquia de Tendais, Concelho de Cinfães, Diocese de Lamego. Nasceu a 29 de Agosto de 1948, filho de Ernesto Francisco (já falecido) e de D. Donzelina dos Santos. Frequentou a Escola Primária de Tendais, Cinfães, de 1955 a 1959; ingressou no Seminário Menor Diocesano de Resende, em 1959 e concluiu o Curso Superior de Teologia no Seminário Maior de Lamego em 24 de Junho de 1971. Foi ordenado Diácono em 22 de Agosto de 1971 e fez estágio Pastoral na Paróquia de S. João Baptista na Vila de S. João da Pesqueira. O Arcebispo D. António de Castro Xavier Monteiro ordenou-o sacerdote na Catedral de Lamego, a 8 de Dezembro de 1972. Foi então nomeado coadjutor da Paróquia de S. João Baptista de Cinfães de 8 de Dezembro de 1972 até Junho de 1974. Em Julho de 1974 foi enviado para Paris para continuar os estudos de Filosofia e Sociologia. Concluiu a Licenciatura de Filosofia na Faculdade de Filosofia do Instituto Católico de Paris, em 1977, e o Mestrado em Filosofia Contemporânea, na mesma Faculdade em 1979. Foi aluno da Escola Prática de Altos Estudos em Ciências Sociais e do Centro Nacional de Investigação Científica de Paris (C.N.R.S.), onde obteve o Diploma de Sociologia Religiosa. Durante estes anos de estudos em Paris, foi membro da Equipa Sacerdotal da Paróquia de S. João Baptista de Neuilly-sur-Seine, assumindo a responsabilidade Pastoral da Comunidade Portuguesa Emigrante. De volta a Portugal foi nomeado Professor e membro da Equipa Formadora do Seminário Maior de Lamego, desempenhando cumulativamente as funções de Secretário e Ecónomo do mesmo Seminário. Foi ainda membro do Conselho de Presbíteros e vice-Reitor do Seminário Maior de Lamego, de 1986 a 1991. A 19 de Março de 1991 é investido como Cónego Capitular da Sé de Lamego. Em Setembro deste mesmo ano é nomeado delegado Episcopal para a Formação do Clero, Responsável da Pastoral Universitária da Cidade, Secretário Diocesano da Pastoral das Migrações e Membro da Equipa Sacerdotal da Paróquia de Santa Maria Maior de Almacave. Da sua acção na Diocese de Lamego destacam-se ainda a passagem como Chefe de Redacção no Jornal Diocesano “Voz de Lamego”, de 1992 a 1998; a 13 de Abril é nomeado Vigário Episcopal do Clero; foi Pró-Vigário Geral da Diocese entre 20 de Janeiro de 1996 e 2 de Dezembro de 1998; presidiu ao Centro de Promoção Social Rural de Lamego e foi irector Espiritual Diocesano do Movimento dos Cursos de Cristandade. A 19 de Março de 2000 é nomeado Pró-Vigário Geral da Diocese de Lamego; membro da Equipa Sacerdotal da Paróquia de Santa Maria Maior de Almacave; professor do Instituto Superior de Teologia do Núcleo Regional das Beiras da Universidade Católica Portuguesa; conselheiro Espiritual das Equipas de Nossa Senhora; vice-Presidente da Associação de Ajuda Mútua do Clero de Lamego (Fraternidade Sacerdotal); e membro da Direcção da ASEL – Associação dos Antigos Alunos dos Seminários de Lamego; A 21 de Dezembro de 2004 foi nomeado Bispo titular de Meinedo e Auxiliar da Arquidiocese de Braga, por João Paulo II. Foi ordenado Bispo, na Sé de Lamego, a 19 de Março de 2005.
: Fonte: Ecclesia : Foto: Correio do Vouga

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

JOÃO XXI, UM PAPA PORTUGUÊS

Há 730 anos, Pedro Hispano era entronizado
como João XXI Assinalam-se hoje 730 anos sobre o dia em que o Cardeal Pedro Julião, ou Pedro Hispano, era entronizado Papa João XXI, em Viterbo, na Catedral de São Lourenço. O único português que foi Papa era natural de Lisboa, sendo designado, no seu tempo, como filósofo, teólogo, cientista e médico, e autor de várias obras científicas. Estando em Roma, depois de participar no Concílio Ecuménico de Lião, tratou o Papa Gregório X de uma doença dos olhos, sendo elevado a Cardeal em 1274. Foi Papa com o nome de João XXI, desde Setembro de 1276 a Maio de 1277. A sua morte deveu-se a um desastre na Catedral de Viterbo, cujas as obras acompanhava. Ficou ali sepultado. A importância do seu talento de homem de ciência mereceu-lhe ser referido por Dante, na Divina Comédia (Paraíso, canto XII). Fonte: www.patriarcado-lisboa.pt.

APELO URGENTE

APELO
Há apelos aos quais não posso, nem devo, ficar indiferente. Quem puder ajudar, faça-o quanto antes. Não fique só a pensar nos que nada têm.
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Nós precisamos de TI ! Precisamos da TUA ajuda. TU, que estás a ler esta mensagem. Precisamos da TUA generosidade, da TUA boa vontade, da TUA oferta. Somos um grupo de AMIGOS DE MOÇAMBIQUE e estamos a preparar um contentor para ajudar as crianças de Inharrime – Centro Laura Vicuña das Irmãs Salesianas. É necessário ALIMENTAR uma missão
e uma comunidade pobre com centenas de crianças órfãs... ALIMENTOS: PRIORITÁRIO Enlatados (salsichas, sardinhas, atum)
Leite em Pó PARA CRIANÇAS (principalmente recém-nascidos)
Papas Lácteas (Nestum, Cerelac...) MEDICAMENTOS: Desparasitantes; Antimaláricos;
Multivitamínicos/ferro; Antibióticos;
Antiflamatórios; Analgésicos; Anti-alérgicos;
Pomadas para queimaduras e antifúngicas. CONTACTOS: filomena.pires@sapo.pt (969 474 878);
Local de entrega das ofertas:
Colégio Maria Auxiliadora, Rua de Trouville, nº4, Monte Estoril Tel.214 680 156 FICAMOS A AGUARDAR A TUA OFERTA
– TENS ATÉ DIA 30 DE OUTUBRO
NÃO HÁ TEMPO A PERDER OUTROS: Sabão em barra; Atoalhados; Lençóis; Cobertores

Um artigo de António Rego

DUAS FRENTES
Os tempos não deixam de nos surpreender. No Vaticano, com um Porta-voz novo e um Secretário de Estado acabado de empossar, eis que surge matéria complexa e imediata para os dois, na sequência dum discurso do Papa Bento XVI na Aula Magna da Universidade de Regensburg aos representantes do mundo científico. A citação dum texto medieval, recentemente lido por Joseph Ratzinger, despoleta uma série de reacções nalguns sectores muçulmanos, de tal forma que se torna em caso diplomático e político, para não falar da violência com que algumas igrejas cristãs foram atingidas. O Papa, no seu discurso, tocou o ponto nevrálgico de incompatibilidade total entre fé e violência ou "difusão da fé pela espada". Mas esta referência tem um enquadramento. Bento XVI fala a gente da ciência para dizer que a razão não pode expulsar Deus da vida e a fé não pode separar-se da razão. Neste contexto surgem as citações que apenas uma leitura apressada ou fanática interpretará como ofensa ou agressão a Maomé. Parece que chegamos de novo ao nervosismo de linguagem que os media utilizam para tornar vivas as suas crónicas e o uso de textos e pretextos para incendiar a opinião pública. Honra a grande parte dos responsáveis de comunidades islâmicas que entenderam o que Bento XVI tinha dito e até alguns agradeceram a explicitação de princípios duramente cultivados pelas correntes lúcidas e moderadas do Islamismo. O texto tal como pretendia incluir Deus na ciência e no mundo contemporâneo com a inevitabilidade da razão, também recusava a espada como instrumento de implantação da fé. Bento XVI, por ocasião do Angelus manifestou-se magoado pela interpretação enviesada das suas palavras. E recordou que o seu discurso" era um convite ao diálogo franco e sincero, com grande respeito mútuo." Importa neste momento realçar o papel dos comentadores dos media que perceberam a falsa armadilha que se estava a lançar não apenas à Igreja mas ao próprio mundo ocidental. O conjunto de leituras sobre o incidente revelou o risco das sínteses precipitadas que se pretendem fazer passar por análises. E pela separação completa entre um discurso que recorda a história, não para ofender ninguém, mas para reafirmar a urgência da presença de Deus no mundo de hoje, proclamada pelo Cristianismo e pelo Islamismo. Mas com a recusa total da violência como arma política ou religiosa.

Imagens do mar

O PESCADOR, EM BUARCOS

Se for à Figueira da Foz, aconselho-o a caminhar, calmamente, pela marginal, até Buarcos. Lá mais adiante, um pouco longe do centro da Figueira, é certo, não pode deixar de apreciar este monumento ao pescador daquela terra, de tantas tradições marítimas, e não só. É verdade que há menos pescadores, mas sempre há por ali quem pesque saboroso peixe que dá vida a bons pratos, nos muitos restaurantes daquelas praias. Verá que, com o passeio e com a maresia a abrir-lhe o apetite, e depois com uma boa caldeirada, dará graças a Deus por tanta paz que tudo isto lhe pode oferecer.

Bom passeio e bom apetite.

Fernando Martins

Um artigo de Acácio Catarino, no CV

Voluntariado
com sensibilidades
diferentes
São bastante diversificadas as sensibilidades dentro do voluntariado e em relação a ele. O mais tradicional não se designava por “voluntariado”, exceptuando o caso dos bombeiros e pouco mais; outrora designava-se por serviço, “ajuda”, dádiva, partilha, assistência, caridade...
Normalmente, esse voluntariado achava-se associado à dádiva de outros, para além do trabalho, e não recebia compensação das despesas efectuadas. Não considerava necessário um quadro legal de regulação, nem um quadro de direitos e deveres. As palavras “responsabilidade” e “compromisso” traduziam melhor o seu tipo de relacionamento.
Pelo contrário, o voluntariado mais recente assume naturalmente a designação, considera necessários os quadros legal e de direitos e deveres, bem como a compensação das despesas efectuadas. Insiste bastante no imperativo da organização e até defende que o trabalho voluntário, caracterizado pela gratuitidade, deve ser tão profissionalizado como o remunerado, qualquer que seja o número médio de horas semanais de serviço.
Compreensivelmente, observam-se reservas mútuas entre o voluntariado mais tradicional e o mais recente, podendo afirmar-se que se estão a aproximar um do outro. Observa-se até uma verdadeira convergência das diferentes famílias e histórias de voluntariado.
Umas e outras vão tomando consciência daquilo que as une e sabendo conciliar aquilo que as diferencia.Trata-se de um processo evolutivo merecedor de simpatia e de atenta ponderação.
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Fonte: Correio do Vouga

Um artigo de Alexandre Cruz

Diálogo de surdos?
1. Não é fácil chegarmos ao entendimento dialogante quando os canais de recepção têm meias leituras sensacionalistas ou análises ideológicas de quem vê o outro não como irmão mas com distância desconfiada. O “caso” do belíssimo e profundo discurso “racional” de Bento XVI sobre questões que em leitura descontextualizada incendeiam a “emoção colectiva” menos atenta e pouco cuidadosa em “ler o conteúdo com olhos de ler” diz-nos que no chamado diálogo inter-religioso há muito a aprender. Será caso para dizer que nem todas as razões a “razão” conhece, e quando a inesperada reacção acontece é sinal de que as ondas de sintonia andam muito desencontradas. Afinal, como dialogar? Haverá lugar no “diálogo” para as verdades fundamentais? Será possível chegar aos consensos que estimulem positivamente as emoções colectivas que tantas vezes carecem da dose “qb” de “razão”? É possível, da parte da chamada teologia ocidental, escolher outras citações menos delicadas? Afinal, onde param, mais uma vez, as facções do Islão que poderiam por água na fervura dando o verdadeiro sentido ao texto e apaziguando os ânimos? No fundo, qual o lugar da “razão” no diálogo? Será possível o diálogo inter-religioso sem dizermos que “Deus não tem nada a ver com a guerra nem, quer nada com a guerra”? Ou no “diálogo” haverá lugar só para meias verdades que vão entretendo?... Das tantas análises, sob os diversos prismas que no fundo de tudo vão ao encontro da relação entre o ocidente e o mundo islâmico, foi de apreciar os testemunhos insuspeitos de líderes de outras religiões ou personalidades que se consideram indiferentes ao fenómeno religioso, que manifestaram apreço objectivo pela profundidade do discurso académico de Bento XVI sobre as relações entre “Fé, Razão e Universidade; Memórias e Reflexões”; para alguns, que leram todo o texto e só depois fizeram comentário, foi mesmo novidade bem estimulante toda a fundamentação filosófica e teológica do discurso que, na fronteira, procura despertar os horizontes da inteligência humana. Assim, o primeiro passo, princípio de honestidade intelectual, será sempre o ler todo o texto e só depois se pronunciar sobre ele; não um alinhar em meias leituras com slogans sensacionalistas, como acaba por denunciar o próprio director do Público, José Manuel Fernandes, referindo-se ao mau jornalismo que contribuiu para a confusão. 2. Em verdade, o que disse Bento XVI? Mesmo dos meios menos simpáticos para com o Papa alemão vai-se notando uma admiração na coragem que ele tem em, num espírito de pluralismo cultural, chamar os nomes às “coisas”. Não se pense que ele terá dito algo de novo, de modo algum; o que ele disse uma boa parte da população do mundo o diz: “agir de modo irracional é contrário à natureza de Deus” pois é diminuição de humanidade; ou seja, sem qualquer apologia ‘caseira’ mas em discurso aberto a questões universais, sublinha que a Fé deverá conter dose “qb” de razão, tem estrutura, pensamento, razoabilidade…e mal vai quando a emoção sem razão cresce a ponto da convicção não ser pensada; este, sem o bom senso, é o salto para o fanatismo... Não é novidade este apelo que afinal corresponde ao espírito da dignidade e dos direitos humanos; já em Agosto de 2005, na sua viagem a Colónia (Alemanha), Bento XVI confrontou os representantes islâmicos com o fenómeno do terrorismo, afirmando que "os programadores dos atentados demonstram que desejam envenenar os nossos relacionamentos e destruir a confiança, servindo-se de todos os meios, até mesmo da religião, para se oporem a todos os esforços de convivência pacífica e tranquila". Porque nesta altura não existiram manifestações?... Separando as águas, seja Papa conservador ou progressista, seja líder desta ou daquela religião ou de filosofia social ou política, seja trabalhador em fábrica, professor, aluno ou “cidadão” comum que cada dia faz o melhor que está ao seu alcance, seja mesmo indiferente (ainda) às questões de um sentido para a vida, sempre que “alguém” disser que a “guerra santa” é um mal objectivo e que a religião nunca deve ser confundida com a violência, aí estamos mais próximos da “verdade” absoluta de que “Deus é amor”. 3. No meio de tudo isto, é certo que poderão existir outras citações sobre pensadores passados menos sensíveis, certamente. Mas o fundamental de tudo será que para haver “diálogo inter-religioso”, de facto, a “verdade” objectiva da rejeição da violência, do fundamentalismo e do mal terá de ser um ponto de convergência de todos. E mais: talvez tenha chegado o tempo do Islão puro, moderado, ter “palavra” forte de moderação e bom senso nas seitas extremistas islâmicas… Onde estão os moderados no papel de moderadores? É essencial! Ou terão, eles próprios, medo de ser acusados de “ocidentalizados” e por isso preferem calar-se deixando andar? Já em outros escritos sublinhámos que, infelizmente, fanatismo existe em imensos lados e instituições, e não só no âmbito religioso; fanático e fundamentalista será o que não atingiu a maturidade do “diálogo” que complementa e enriquece a todos. O discurso de Bento XVI talvez tenha sido também “uma verdade inconveniente” e delicada mas, no fim de tudo, pode apresentar-se como um programa para “aprendermos mais a dialogar” (sem guerrear). Seria uma urgência histórica, continuando a apurar as “condições do diálogo” pois não é possível dialogar com “armas” ou desconfianças!... Talvez este seja o novo muro de Berlim que caberá ao Papa entreabrir pela estrada da “razão”… A-ver-vamos (ou não), assim seria tão importante no mundo globalizado! É verdade que diálogo à força é impensável, seria de surdos; mas que bom seria que todas as forças humanas se colocassem em fecundo diálogo para melhor nos conhecermos e mais futuro projectarmos!...

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Televisões de cabeça perdida?

Alma sã em corpo são
Confesso que me intriga o comportamento de gente que aposta em programas com cenas de sexo em horas acessíveis a muita gente. Gente jovem e gente menos jovens. Diz Francisco Penin, o director de programas da SIC, onde uma telenovela com essa marca vai passar, que esta é uma aposta da estação, porque, sublinha, “estas cenas fazem com que mais gente veja a série". É pena, a meu ver, que responsáveis por uma televisão, com responsabilidades na formação das pessoas, insistam em programas com conteúdos que possam ferir sensibilidades, à custa da conquista das audiências. Ainda há meses, em Aveiro, o jornalista José Carlos de Vasconcelos garantiu que os programas, com qualidade, mais tarde ou mais cedo acabarão por merecer a preferência do povo, pelo que urge avançar com eles. Mas não há dúvida, pelo que se vê, que há directores, com responsabilidades nessa matéria, que teimam em seguir os caminhos mais fáceis, por mais degradantes que eles sejam, em detrimento do que possa contribuir para o enriquecimento das pessoas, ao nível da formação moral, cultural, social e cívica. E o mais caricato disto tudo é que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que já iniciou um processo de averiguações para saber por que passou a SIC “spots” promocionais da série, com cenas de sexo, durante o dia, não consegue levar as pessoas à razão. Em resposta, Francisco Penin frisa que a conversa que teve com aquela entidade não teve qualquer efeito na decisão de passar os episódios, depois das 23 horas, sabendo ele, como sabe toda a gente, que a essa hora ainda há crianças e adolescentes de pé e a ver televisão. Continuo a pensar que neste País, que é o nosso, não faltam directores de programas, afinal, para quem o lucro justifica todos os procedimentos. E o mais grave é que, de certeza, não lhes hão-de faltar apoios publicitários de firmas ligadas a produtos que consumimos. Claro que essas séries apenas se destinam a pessoas sem mente sã. E que, por essas e por outras razões, dificilmente chegarão a ser gente de alma sã em corpo são. F.M.

Imagens da Ria

FOI ATRAPALHAÇÃO NA MANOBRA
Tive ontem, pela tarde, a visita do ex-arrais Gabriel Ançan. Está velho. Sempre são setenta e quatro anos de idade, dos quais cinquenta e três de arrais, em seis costas. Mas ainda hoje, à ré de um barco sardinheiro, não faria má figura. É de cerne, o Ançan, e do mais rijo. Nunca esteve doente… Salvou para cima de cento e vinte vidas. Ainda novo, perdida estaria a tripulação da barca francesa Nathalie se não fora ele. A mulher do capitão, desvairada pelo terror, atirou-se do convés para o mar: recebeu-a o Ançan nos braços. “Pesava menos que um lenço de assoar, mas como vinha tocada do alto, ainda me fez arrear um bocado os cotovelos.” … Ainda garoto foi dos que foram buscar a Senhora D. Maria II a Ovar. O Senhor D. Luís qui-lo para seu arrais. “Ainda estou novo, meu Senhor, e aqui não há quem me substitua.” Como intermináveis formalidades burocráticas lhe entravassem, durante três anos, a pensão requerida, tirou-se dos seus cuidados e partiu para Lisboa com dez tostões no bolso… Chegado às Necessidades, respondeu ao familiar de serviço: “Diga a Sua Magestade que é o Ançan, e verá como ele me recebe logo”… E da visita ao Senhor D. Carlos, só lhe ficou o remorso de ter saído de proa, isto é, de costas para o Rei. “Foi atrapalhação na manobra!” Chegou a ver todos os filhos, três, arrais como ele; e era lindo, comovedor e exemplar, ver sair, ao mesmo tempo para o mar, quatro companhas, de quatro Ançans. E se deixou a faina não foi porque já não pudesse fazer-lhe frente. “Ainda me não assusto, mas já não salto para bordo nem acudo às aflições com a prontidão de outros tempos e, tendo levado a vida a salvar gente, não quero arriscar-me a que me salvem a mim”. (Cunha e Costa, Paisagens, perfis e polémicas) In “Geografia de Portugal”, de Amorim Girão : Nota: Foi respeitada a ortografia

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Combate à pobreza

Governo quer prioridade
ao combate à pobreza
de crianças e de idosos
O Governo aprovou as linhas gerais do Plano Nacional de Acção para a Inclusão (PNAI) até 2008, documento que pretende dar prioridade ao combate à pobreza de crianças e idosos, e à integração de imigrantes e deficientes. Estabelecido para o período de 2006-2008, o PNAI é o documento multi-sectorial e multi-dimensional de coordenação estratégica e operacional das políticas de combate à pobreza e à exclusão social, em observância da Estratégia de Lisboa e fundado em objectivos comuns aplicados a todos os Estados da União Europeia.
Os grandes objectivos que vão estruturar a elaboração do PNAI são: A definição de um número restrito de prioridades fundamentais para obter resultados no combate à exclusão; A identificação de um número restrito de metas de cariz instrumental, garantindo que as mesmas se encontram devidamente alicerçadas em medidas concretizáveis e com financiamentos garantidos;A identificação de resultados que possam ser mensuráveis e devidamente avaliados.
Deste modo, o PNAI visa a adopção de medidas que permitam combater a pobreza persistente e encontra-se estruturado em torno de três prioridades: Combater a pobreza das crianças e dos idosos; Corrigir as desvantagens na educação e formação; Ultrapassar as descriminações e reforçar a integração das pessoas com deficiência e dos imigrantes.
"O PNAI tem prioridades bem definidas, instrumentos, medidas e metas quantificadas", referiu o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, no final da reunião do Conselho de Ministros.
Além das prioridades ao combate à pobreza de crianças e idosos e integração de deficientes e imigrantes, Vieira da Silva declarou que o PNAI privilegiará também acções que visem "corrigir as desvantagens na educação e formação".
"Combater as desvantagens na educação e na formação é lutar para que não se perpetuem os ciclos de pobreza", justificou o membro do executivo, sublinhando que o plano "pretende envolver a sociedade civil e as autarquias".
"Vamos fazer uma abordagem territorial dos problemas, porque as questões que se levantam apresentam uma abordagem diferenciada consoante as regiões do país", explicou.
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CITAÇÃO

O Papa e o islão VASCO PULIDO VALENTE
Não deve haver académico que, lá no fundo, não tenha um especial fraquinho pelo Papa Bento XVI. Afinal, ele faz parte da corporação e, mais, foi durante muito tempo um motivo de orgulho para a corporação. Fala o dialecto da seita, escreve no dialecto da seita e, se não pensa como a seita, pensa segundo as regras da seita. Só que é Papa e que, sendo Papa, de quando em quando, esquece o mundo cá de fora e reverte ao seu velho papel de universitário. O "escândalo" de Ratisbona não passa disto. Bento XVI, querendo explicar a irracionalidade da conversão pela violência, citou o imperador Manuel II Paleólogo. Num diálogo com um persa, Paleólogo dissera: "Mostra-me então o que Maomé trouxe de novo. Não encontrarás senão coisas demoníacas e desumanas, tal como o mandamento de defender pela espada a fé que ele pregava".
O mais preliminar assistente de Literatura, História, Filosofia ou Teologia percebe logo três coisas. Primeira, que o Papa não dá o imperador Paleólogo como um intérprete autorizado da religião muçulmana, mas como um como um opositor inteligente à perseguição religiosa. Segunda, que o Papa não esqueceu as perseguições da sua própria Igreja e que usou o imperador por conveniência ilustrativa da desordem moderna. E, terceiro, como o título e o resto da conferência comprovam, que Ratzinger não estava interessado em "atacar" ninguém, estava interessado na dualidade da fé e da razão. Infelizmente, a "rua" islâmica não é o público letrado da Universidade de Ratisbona e começou rapidamente a usual campanha de ódio contra o Bento XVI, que de toda a evidência o deixou estupefacto.
O papa já lamentou o equívoco, mas não pediu desculpa. Não podia pedir. Nem pelo incidente, fabricado pelo fanatismo e a ignorância, nem pelo teor geral da conferência de Ratisbona. Ratzinger insistiu que a fé não é separável da razão e que agir irracionalmente "contraria" a natureza de Deus. Não vale a pena entrar nas complexidades do assunto. Basta lembrar que desde o princípio (desde Orígenes, por exemplo) se construiu sobre a fé cristão um dos mais sublimes monumentos à razão humana e que o Ocidente, apesar da "Europa", não existiria sem ele. A fé muçulmana não produziu nada de remotamente comparável e, durante quinze séculos, sustentou uma civilização frustre e parada. A conferência de Ratisbona reafirmou a essência do cristianismo. Se o islão se ofendeu, pior para ele. :
In "PÚBLICO" de ontem
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Leia mais em Ecclesia

Dia Europeu sem Carros 2006

22 de Setembro
com ruas só para peões
Com o objectivo de sensibilizar a população para uma boa utilização do domínio público, a Câmara Municipal de Ílhavo vai organizar, pelo quinto ano consecutivo, o Dia Europeu sem Carros que se realiza no próximo dia 22 de Setembro. Nesse dia a circulação automóvel será interdita entre as 9 e as 19 horas, numa área pré-definida nas Cidades de Ílhavo (Av. Mário Sacramento) e da Gafanha da Nazaré (do cruzamento para o Centro Cultural até aos semáforos junto à Igreja Matriz), onde se realizarão várias actividades desportivas, recreativas e educacionais direccionados a todo o público, mas em especial às Crianças das Escolas e Jardins de Infância do Concelho de Ílhavo.

domingo, 17 de setembro de 2006

Nossa Senhora dos Navegantes

PROCISSÃO PELA RIA DE AVEIRO
ATRAIU MUITA GENTE
Como sempre, a procissão pela Ria, com saída do porto de pesca longínqua, na Cale da Vila, Gafanha da Nazaré, rumo ao Forte da Barra, atraiu muita gente. O cais estava cheio de pessoas que gostam de presenciar o ambiente. Pelo que vi, por ali estavam muitos gafanhões, mas também aveirenses e ilhavenses, que ano após ano renovam o gosto de ver e de passear pela Ria. Os barcos, de todos os tamanhos e feitios, iam repletos. Para mim, que tive o prazer de estar com o antigo prior da Gafanha da Nazaré, Padre Miguel Lencastre, que iniciou, na década de 70 do século passado, esta procissão, em honra de Nossa dos Navegantes, que se venera no Forte da Barra, a festa deste ano teve um valor especial. Com ele, recordei o que foram esses tempos, em que foi preciso dar novo fôlego às festas paroquiais, e percebi, então, quanto o Padre Miguel estava feliz, por mais uma vez se encontrar com os paroquianos que não o esquecem. Ontem, sábado, participou na missa de acção de graças que se celebrou no Stella Maris, presidida pelo prior da Gafanha da Nazaré, Padre José Fidalgo. Naquela casa me falou da sua alegria por estar nesta terra, do prazer de conviver com o povo, de entrar no Stella Maris, uma estrutura diocesana vocacionada para o apoio aos homens do mar, que soube dinamizar após o 25 de Abril e que ainda se mantém actual, nesta altura em fase de reestruturação, em obediência às exigências de hoje. Alguém me segredou a importância desta festa e desta procissão. “Podiam acabar todas as festas, mas acho que esta devia continuar, porque é sentida de modo especial pelas populações desta região.” Concordo. Mas também compreendo que o sortilégio da festa em honra de Nossa Senhora dos Navegantes vem muito da procissão pela Ria. A Ria de Aveiro é um pouco, ou muito, a matriz das nossas sensibilidades. Somos, de certo modo, filhos da laguna, cujos cheiros, cores e sabores nos invadem desde a nascença. Nós, os povos ribeirinhos, nascemos inundados pela maresia. Ouvimos, na serenidade da noite, o mar e a ria, e os nevoeiros matinais até parece que vêm salgados. Por isso, o encanto de tudo o que acontece de bom na Ria. Fernando Martins

RECORDANDO...

Barcos preparam-se para a procissão
:: Festa da Senhora
dos Navegantes
Numa tentativa de sensibilizar os historiadores gafanhões, e não só, para se debruçarem, com entusiasmo, sobre o passado do nosso povo no que diz respeito à Festa da Senhora dos Navegantes, nada melhor do que começar por um pequeno texto que extraímos da Monografia da Gafanha do Padre João Vieira Rezende, que foi pároco da Gafanha da Encarnação. Diz assim: “No Forte, freguesia da Gafanha da Nazaré, começou a ser construída em 3 de Dezembro de 1863 a capela de Nossa Senhora dos Navegantes, sob a direcção do exímio engenheiro Silvério Pereira da Silva, a expensas dos Pilotos da Barra, sendo então piloto-mor um tal senhor Sousa. Custou 400$000 réis. Na parede está fixada uma lápide que diz: «Património do Estado». Há de interessante e invulgar nesta capela as suas paredes ameadas e a ombreira da porta principal, de pedra de Ançã, lavrada em espiral com arco em ogiva. Celebra-se a sua festa na última segunda-feira de Setembro com enorme concorrência de forasteiros das Gafanhas, de Ílhavo, Aveiro e Bairrada. Nesse dia Aveiro é um deserto por se terem deslocado para ali muitos dos seus habitantes. A procissão ao sair do templo segue por sobre o molhe da Barra e regressa pela estrada sul que vem do farol. A festa é promovida pela Junta Autónoma da Barra.” Tanto quanto sabemos, a capela que tem como padroeira Nossa Senhora dos Navegantes, no Forte da Barra, é o mais antigo templo das Gafanhas, mantendo com rigor a traça original, apesar das obras de restauro e conservação por que tem passado. Pequenina, ali está inserida, e bem, no complexo portuário que entretanto foi nascendo, dando, ao mesmo tempo, sinais de que vai crescer ainda mais. A Senhora dos Navegantes, que os nossos pescadores e mareantes tanto veneraram nos tempos dos nossos avós, não deixará, contudo, com a sua ternura de Mãe, de velar por quantos sulcam as águas do mar, não já na Faina Maior, que o bacalhau que comemos já é mais importado do que pescado pelos portugueses, mas sobretudo nos transportes marítimos e na pesca costeira. Espera-se também que a Senhora dos Navegantes olhe, atenta, para os que hão-de recolher-se à Marina da Barra, ainda em fase de estudo e discussão, e às outras existentes na laguna, para fugir dos temporais ou para desfrutar das paisagens únicas que a Ria de Aveiro oferece. E já agora, que Ela inspire bom senso a quantos projectam uma Marina mais completa, para que as populações ribeirinhas não venham a ser prejudicadas, antes possam usufruir de uma infra-estrutura de nível internacional. Do texto do Padre Rezende, registamos, como ponto de partida para uma análise mais profunda, o pormenor, significativo, da construção da capela ter sido iniciativa e a expensas dos Pilotos da Barra, não se sabendo se houve, ou não, qualquer pedido ou sugestão das populações, entidades eclesiásticas, políticas ou autárquicas. Ainda seria curioso saber se o piloto-mor, o tal senhor Sousa, era pessoa da nossa região e ligada à Igreja. Por outro lado, seria interessante descobrir-se como apareceu aqui a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes, como se escolheu a imagem e quem deu a sugestão para a confecção do rosto. Teria sido tudo trabalho do piloto-mor? O facto de as paredes do templo serem ameadas prende-se, compreensivelmente, à existência do Forte Novo ou Castelo da Gafanha, numa certa homenagem à defesa da zona das investidas por via marítima dos inimigos da Pátria. Debrucemo-nos, então, um pouquinho sobre a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, que não tinha nada de procissões pela Ria de Aveiro. Essas vieram mais tarde, por iniciativa do Padre Miguel Lencastre, prior da Gafanha da Nazaré entre Abril de 1973 e Outubro de 1982. Tanto quanto nos diz a memória, a Festa da Barra (como também era conhecida) da nossa meninice, já lá vai mais de meio século, tinha a marcá-la, como pormenor mais típico, a procissão até ao mar. Era sempre na última segunda-feira de Setembro, pois no domingo anterior realizava-se a festa da Senhora da Saúde, na Costa Nova. A festa de Nossa Senhora dos Navegantes atraía mais o povo de Aveiro e Gafanha da Nazaré e a de Nossa Senhora da Saúde era mais ao gosto das gentes de Ílhavo e Gafanha da Encarnação. A uma e a outra associavam-se os veraneantes a banhos nas praias da Barra e Costa Nova, respectivamente. No dia da festa, de manhã, tinha lugar uma procissão da igreja matriz da Gafanha da Nazaré para o Forte, sendo transportada em andor a imagem antiga de Nossa Senhora da Nazaré (Já restaurada, como pode ser apreciada no altar-mor da Gafanha da Nazaré), com os membros da Irmandade que tem por patrona a padroeira da paróquia a prestarem-Lhe as devidas honras, com as suas opas brancas, murças azuis e bastão (pau a imitar uma vela de cera). Anos depois, chegaram a levar o andor com a imagem numa carrinha de caixa aberta, numa clara violação das tradições. A procissão até ao mar começava obviamente na capela e seguia pelo molhe que dá acesso à Meia-Laranja. Presidia o prior da Gafanha da Nazaré, incorporavam-se as irmandades e os “anjinhos” e o povo acompanhava atrás. Não faltava a música. Os foguetes estralejavam e o colorido das opas e murças emprestava dignidade ao acto. Na Meia-Laranja havia a bênção do mar e de quantos dele viviam ou nas praias apanhavam banhos de sol, voltando a procissão agora pela rua que ligava a Barra ao Forte, atravessando pela segunda vez a ponte de madeira que só os mais velhos podem recordar. Na Meia-Laranja, os veraneantes associavam-se com devoção ao gesto da bênção do mar e das gentes, recordando, talvez, quantos foram tragados pelas águas revoltas do mar embravecido. As gentes ribeirinhas sempre tiveram muito respeito pelo mar, ou não fosse ele o amigo que dá sustento ou destrói vidas indefesas. Por isso, a adesão dos povos da beira-mar aos festejos em honra de Nossa Senhora dos Navegantes. Como nota final, queremos realçar o facto de a Festa da Senhora dos Navegantes ter tido, durante muitos anos, como organizadores, a Administração e os trabalhadores da Junta Autónoma da Barra, depois Junta Autónoma do Porto de Aveiro, antecessoras, de certo modo, da actual APA (Administração do Porto de Aveiro). Os trabalhadores, muitos domingos antes da festa, percorriam as Gafanhas, Aveiro e Ílhavo, de saco ao ombro e de saca na mão, recolhendo donativos para as muitas despesas. Tudo se perdeu no tempo. Mas é com gosto que registamos o facto de a APA apoiar logisticamente a festa em Honra da Senhora dos Navegantes, associando-se ao Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, que a organiza, à Paróquia, ao Stella Maris e Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré, à Câmara Municipal de Ílhavo, ao Instituto Português da Juventude, ao povo amigo das tradições e a todos os que a tornam possível, agora com a aliciante procissão pela Ria, que lhe dá um outro encanto.
Fernando Martins

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